França: relatório sobre pedofilia domina assembleia episcopal em Lourdes

 

Os números do relatório Sauvé são assustadores. Cerca de 216 mil pessoas foram vítimas de violência ou agressão sexual quando crianças ou adolescentes por clérigos ou religiosos e religiosas desde 1950. REUTERS/Jason Cohn


Texto por: 
RFI

Quatro semanas após a apresentação do relatório sobre os crimes de pedofilia da Igreja Católica na França, o encontro anual dos bispos do país, que será realizado a partir desta terça-feira (2) em Lourdes, será marcado pela onda de revelações dos crimes. Os cerca de 120 bispos que estarão reunidos durante sete dias dedicarão quase metade do seu trabalho "à luta contra a violência e as agressões sexuais contra menores", de acordo com o programa divulgado à imprensa.A assembleia, inicialmente prevista para seis dias, terá um evento de abertura voltado para o tema. Jean-Marc Sauvé, presidente da Comissão de Pedocriminalidade que publicou o relatório que leva seu nome, não foi convidado.


Os bispos têm por objetivo “dar oportunidade à recepção, ao trabalho e à leitura” do relatório publicado em 5 de outubro, e que revelou a extensão dos crimes de pedofilia na Igreja Católica desde 1950.


Os números são assustadores: cerca de 216 mil pessoas foram vítimas de violência ou agressão sexual quando crianças ou adolescentes por clérigos (padres ou diáconos) ou religiosos e religiosas, desde os anos 50. O relatório estima um número de cerca de 3 mil predadores envolvidos ao longo de 70 anos.




Resposta insatisfatória


A reação do episcopado é aguardada pelos católicos . Cerca de 76% deles acreditam que a resposta dada até agora não é satisfatória, de acordo com uma pesquisa Ifop para o jornal La Croix, publicada nesta quinta-feira (28).


As vítimas serão convidadas a falar em plenário na sexta-feira (5), com membros da Conferência de Religiosos e Religiosos da França (Corref), leigos e clérigos que participaram de grupos de trabalho, membros de células de escuta e responsáveis ​​pela educação católica.


Na manhã de sábado (6), um "gesto memorial" simbólico está previsto em respeito às vítimas. Paralelamente, será organizado um encontro de coletivos de vítimas, na cidade de Lourdes e em Paris, em frente à sede da Conferência Episcopal, com uma fita roxa simbolizando o apelo ao reconhecimento da responsabilidade da Igreja, à reparação e a um programa de reforma.


Para François Devaux, cofundador da associação La Parole Libérée, é  fundamental que os bispos pronunciem no dia 7 de novembro o "reconhecimento da responsabilidade da Igreja e iniciem um processo de reparação".


Responsabilidade civil da Igreja


As questões envolvendo a "responsabilidade" e o dispositivo financeiro que permitirá pagar, no futuro, uma indenização às vítimas, serão estudadas durante esta semana entre "as prioridades" deste encontro, ainda de acordo com o episcopado. Depois de uma semana de trabalho, muitos assuntos de conteúdo ainda desconhecidos serão colocados para votação dos bispos no encerramento, em 8 de novembro.


Entre as 45 recomendações do relatório, a Comissão Sauvé propôs reconhecer a responsabilidade civil e social da Igreja, "independentemente de qualquer culpa pessoal dos seus dirigentes". Também recomendou individualizar o cálculo da indenização para cada cada vítima de acordo com o “dano sofrido”. Para financiar o fundo de indenização, a comissão rejeita a possibilidade de um apelo a doações por parte dos fiéis, recomendando financiar a indenização paga às vítimas "com o patrimônio dos agressores e da Igreja da França".


Esta última recomendação contradiz as intenções do episcopado francês, que anunciou, em março, o pagamento às vítimas, a partir de 2022, de uma "contribuição financeira", mas que não pode ser considerada como uma “indenização”. Além disso, foi anunciado um fundo que pode ser comparado às “doações de bispos, padres, fiéis e qualquer pessoa que deseje participar". Os estatutos deste fundo foram "apresentados" nos últimos meses, asseguram os bispos que começaram a contribuir.


(Com informações da AFP)

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